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Sem Peter Pan e muito menos Michael Jackson, aqui estou.

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Sábado, Março 25, 2006

Quatro horas e trinta e dois minutos foi o tempo exato que li 'O Diário de um fescenino' do Rubem Fonseca. Tirando os dois minutos antes que demorei na consulta no nosso tão respeitado Aurélio, no resumo da ópera, foi isso mesmo. E estava: adj. Obsceno, licencioso. Só que vamos começar do começo, de praxe.

A única biblioteca da cidade onde moro sempre foi boa. Me lembro criança indo de bicicleta na Prefeitura (era onde era instalada, até pouco tempo) e me perder nos livros de lá. Me lembro dos livros de Ruth Rocha, devidamente para a minha idade, já que quem me sugeria eram as professoras. Não me recordo em ter literatura clássica dentro de casa, muito menos as não clássicas, na realidade não me lembro de ter livros em casa a não ser gibis e jornais, que era uma leitura, só que não linear, talvez aí minha dificuldade com os romances e livros lineares hoje em dia, não sei. Sei que eu sempre gostei de cores, acho que já disse aqui do meu fascínio por determinadas cores, da época que só me vestia de cor laranja, a outra só de azul, e por isso o que sempre me chamou a atenção eram as cores dos livros, revistas e gibis, como acredito pra toda criança, só que no meu caso era diferente.

Tenho um tio que além de tio é também meu padrinho e sempre me presenteou com coisas legais e que de fato eu sempre quis. Criança gosta de coisas sem muito nexo e utilidade para os adultos e meu tio sempre entendeu isso. Em todo lugar ele me presenteava com o que eu quisesse, e começou assim, pelas cores daqueles livros que tinham umas funções bacanas como puxar a cartola do mágico, a orelha do coelho e outras coisas do tipo. O texto era secundário, mas foi assim que eu passei a tomar gosto também pelas letras e não só as cores. E grana no bolso dos inventores dessa façanha! Meu pai me contava histórias para dormir todas as noites e não canso de repetir que ele foi o que adubou o meu imaginário e fez com que aos poucos eu tomasse gosto pelos livros, claro, colocando nesse balaio o meu tio e tia, essa que sempre me achava mais inteligente do que qualquer outra criança da minha idade, essas coisas de parentes.

Voltando, a biblioteca da cidade sempre foi o meu refúgio. Ia pra ler gibis, Ruth Rocha e fazer pesquisas da escola, além de acalmar uma ansiedade sei lá do que e viver minutos, horas imaginárias, que sempre me fez muito bem, mesmo não lendo nem um terço de lá. Pois bem, passaram-se os anos e sempre passo por lá (no mínimo uma vez ao mês) pra pelo menos dar uma olhada nos novos livros, rever as antigas capas - coloridas e fascinantes - de outros que já li ou então ler o jornal e ver a pilha de doação. Já peguei quatro livros (todos repetidos) de Física da Unicamp, desses antigos e vendi num sebo. Física nunca me interessou! Sempre me pergunto o porque que os catadores de papel não vão à biblioteca. Além de lerem os livros, eles podem levar pra casa e depois de ler, vender, é um bom negócio.

Confesso que emprestei 'O Diário de um fescenino' da biblioteca, por três motivos. Primeiro motivo: Novo. Como eu disse, todo mês passo na biblioteca pra ver se tem algum livro novo que talvez possa me chamar a atenção. E outra, livros novos são logicamente mais conservados, o que a princípio agrada. Segundo motivo: Diário. Como eu também disse, não gosto de leitura linear e essa quebra do diário (essa certa fragmentação mesmo no final das contas sendo linear) me agrada. Certo que quando você pensa em diário, automaticamente surge em mente a idéia da leitura banal, (confesso, como na minha mente), mesmo lendo pouquíssimos diários pra poder dizer, só que quis arriscar e tirar esse preconceito idiota da minha cabeça. O motivo? Esse já é o terceiro: Rubem Fonseca. Me lembrava que já tinha lido alguma coisa dele e que eu tinha gostado, só não me lembrava o que ou qual, no caso. Esse é um grave defeito meu, minha memória. Nada pior do que você ter lido, gostado ou mesmo visto, ouvido e não se lembrar depois. Sofro desse mal, e até então não vi cura, por mais que remédios ou médicos tentassem me convencer.

Certo, lá estava eu com minha carteirinha em mãos quando um homem lá com seus 35 anos, alto, loiro, bonito até, do meu lado se virou e olhou para mim e em seguida minha mão. De lado percebi os olhares e me virei pra ver se conhecia. Não, claro, a constatação foi ele não me cumprimentar, pois como eu disse, minha memória não é lá essas coisas. A questão é que ele me olhava como se quisesse me dizer algo, em específico sobre o livro, já que insistia em olhar para o livro e em seguida olhar para o meu rosto. Tapei o nome do livro com a mão para ver se o homem se tocava tamanho o meu constrangimento, quando ele sorriu. Ou ele pensou eu ser muito caipira ou então ele sabia o significado do nome do livro, no caso, a palavra fescenino. É, é melhor eu não arriscar.

É bom descobrir o que não se é, ao menos pra mim foi. Não sou uma boa leitora, diga-se boa (ou bom) aquele que lê e lembra, ao menos pra mim isso é fundamental, como acho que pra todo mundo, além de fazer referências, junções, etc, etc, etc. Digo isso pois não sou 'um Almanaque' como era Rufus na infância e muito menos li os dez livros do Dostoievski seguidamente. Mal li Crime e Castigo tendo eu meus 22 anos, quanto mais dez, ainda por cima aos dez anos de idade. Além do mais, não sou escritora e nunca serei, não que eu quisesse de fato, mas é bom saber o que não se é e não será. E outra, escritores são safados, nojentos, corrosivos e milhares de outras coisas. Digo isso pelo Fernando, eita carinha indigesto! É escritor, claro. E quanto a mim? 'Um anjo'.

Fazia tempo que não me sentia bem ao ler um livro. Os livros costumam me deixar puta de raiva ou depressiva, varia. Outros exigem demais da minha inteligência que acabo deixando de lado e voltando quando me dá surtos de 'preciso me sentir gente', varia também. Gostei deste, na realidade gosto de livros inteligentes, é esta a constatação. E dialógicos, claro. Não quero falar de Bahktin, não agora, por favor!

Não fui na Bienal do livro este ano. Deve ser por isso que tenho ido com mais freqüência à biblioteca daqui. E quanto ao Rubem Fonseca, na realidade esse 'Diário', foi publicado em 2003. Quero é o próximo! Faminta por Rufus sim, eu assumo!


Na vitrola: Bob Dylan - Empire Burlesque

Sábado, Março 04, 2006

O bom de voltar é reler tudo o que escrevi e pouco me importar (me importando) como sempre, com o que escrevo por aqui. Na realidade muitas coisas aconteceram, desde minha mudança de casa, quanto a também arrumar (e estar arrumando e arrumando e arrumando e sempre arrumando tantos trecos e cacarecos, coisas que uma casa possa ter), quanto a minha solidão necessária e tão valiosa para mim, quanto a primeira carta que ganhei do meu irmão de 5 anos, quanto à sempre companhia e carinho do Renato, quanto a minha primeira grande virose do ano e tantas milhares coisas e milhares, milhares, milhares que aconteceram.

Mudei, sim, mudei e ainda estou me encontrando, e digo como pessoa. A cada dia que passa me encontro de uma forma e as pessoas que convivem comigo diariamente, sabe que preciso de liberdade e respeito para quaisquer decisões tomadas, ou não. Mutação, e vejo que a cada dia me encontro mais madura e aos poucos vou vendo que isto de fato é grandioso, mesmo sendo assustador analisando assim, de canto e com piscadelas infantis, que sempre estarão por aqui.

Não me desgasto mais com pequenos detalhes e tenho valorizado as coisas que acontecem e como acontecem. Só me preocupo (e esta sim é uma preocupação que me cerca) em encontrar pessoas verdadeiras por onde ando, e digo verdadeira sendo detestável, amável, o que for, tenho me preocupado com a verdade e como ela é apresentada.

É, tudo parece confuso e filosófico, só que isso nada mais é do que uma grande mescla de coisas e situações e chame lá do que quiser de coisas que estão e virão a acontecer na minha vida. Preciso e a cada dia que passa tenho mais certeza disso, de descanso, sossego, tranqüilidade e serenidade em todos os meus atos, situações, decisões e tudo mais o que vier. Não que eu tenha sofrido grandes aventuras, mas não quero complicar, quero viver, e isso é o que as pessoas deveriam fazer, além de parar de controlar a vida alheia, julgar e querer moldar seja a situação ou pessoa que for. Pessoas pequenas estão surgindo ou então se transformando e ser você mesmo virou lição de casa pra ser entregue lá pra quando você tiver seus 50 anos, ou mais.

Sim, eu estou bem, muito bem por sinal. Ontem foi meu aniversário e recebi carinho de pessoas que tanto amo e quero bem. O dia foi cercado de coisas simples, mágicas e discretas, como eu desejava. Estou com uma tosse que me deixa sem voz e me faz tomar um xarope de própolis, estou feliz por ter descartado uma das melhores oportunidades de emprego vista por quem está por fora, feliz por ter visto o Marcelo, Rodrigo e toda trupe e ver o quanto isso me sustenta, acarinha n'alma e faz me sentir tão bem. Feliz por ter feito amizade com pessoas bonitas, verdadeiras, feliz por me ver feliz.

E tudo aos poucos se encaixa, como uma frase cliché ou como o quebra cabeça da fazenda que meu irmão ganhou de presente de aniversário e que já montamos centenas de vezes. Sim, feliz, e em breve com um template novo, mesmo que seja bizarro. Nossa, citação de Pitty, é, é melhor eu ir.